Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira
Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim,
E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta,
Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida…"
É a voz. Tenho certeza de que é muito mais, em torno dela, que a compõe, mas no fim das contas o que parte dele e chega a mim pelos poros é a voz. Realmente me afeta. Estou seguindo estritamente a conselhos literários aqui, e a frase sincera que pude pensar foi essa, porque sendo sem espaço para floreios, há menos chances de estar distorcendo, o que é coisa comum.
Tenho uma certeza estranha de que a gente, de alguma forma, se comunica. A voz, que é como ele, visceral, destoa tão completamente do mundo em que eu sei viver, me seduzindo pro meio da confusão, outra confusão, diferente da minha. O que me atrai é toda aquela liberdade, tentava explicar.
São os olhos azuis pálidos, não por serem azuis, mas porque eles falam com a mesma firmeza que a voz e têm sede de mundo. O que eu disse foi que essa liberdade é linda, que me assusta e me faz voltar. Não sei por que, ou por quanto tempo.
Percebi que as repetidas voltas que damos são porque se trata de um paradoxo. Não tem solução, nem certo e errado. Só duas pessoas sentadas, de madrugada, no frio, na porta de uma igreja fechada, pela enésima vez. A conclusão é nenhuma e é linda também.
E eu entendi que estava tudo bem porque ele protestou a chegada do meu taxi, que interrompeu nossa dança sem música no meio da rua.
But mostly you just make me mad. Baby, you just make me mad.
(08/07/2011)
” Chegou o tempo de beber sozinho. (…) Por ora, beber apenas.
- Imagine um elefante - disse ele.
- Um elefante - disse o garçom.
- Imagine dois.
- Hum…
- Um, não: dois!
- Eu sei: dois.
- Imagine três. Dez. Vinte.
- Vinte elefantes - sorriu o garçom.
- Agora, imagine cem, duzentos, mil.
- Mil?
- Mil. Se você é capaz. Dez mil, cinquenta mil, cem mil elefantes. Você é capaz?
- …
- Pois agora imagine um milhão. Um milhão de elefantes galopando, um milhão! Já imaginou?
- Poeira, hein?
- Poeira, nada: elefantes! Um milhão. Um bilhão, chega?
- Um bilhão - o garçom repetiu.
- Novecentos bilhões. Novecentos e noventa e nove trilhões de elefantes. Não posso mais. Acho que chega, você o que acha?
- É muito elefante - concordou o garçom.
- É: muito. Pois agora imagine uma pulga.
- Uma pulga - e o garçom suspirou, resignado.
- Isso: novecentos e noventa e nove trilhões de elefantes, de um lado: e uma pulga, do outro lado. - Morou?
- Não.
- É o terror - arrematou ele. - Me dá um uísque.”
F. Sabino
- Estamos imprensados entre esses dois acontecimentos: o nascimento e a morte. Temos apenas 60 anos para resolver o problema, talvez menos.
- Não há problemas: só há soluções.
- Só há uma solução: morrer.
- As nossas contradições. Vivemos segundo nossas emoções do momento, procurando localizar, descobrir uma constante: isso sou eu.
- Ninguém entende nada de nada.
Passaram pela ponte rústica, de madeira já podre, ganharam a ilha deserta, no meio do lago já seco. Havia uma touceira de arbustos, um banco de pedra, uma estátua de mármore pálida de lua. Sentaram-se no banco e se calaram, tentando entender o silêncio. As palavras tinham um sentido além delas mesmas. O silêncio seria, sempre, o único meio de entendimento perfeito.
- Eduardo.
- O quê?
- Estou com medo.
- Eu também.
(…)"
Ai, meu bem, assim não podemos continuar vivendo.
Ai, meu bem, assim não podemos continuar.
Ai, meu bem, assim não podemos.
Ai, meu bem, assim não.
Ai, meu bem, assim.
Ai, meu bem.
Ai, meu.
Ai.
À primeira impressão, está fria demais. Submergir todas as partes do corpo para mudar isso. Equilíbrio. Se sobrar testa para fora da água não funciona.
Adianta para muitas coisas, o mergulho. Tem que ser dramático, não aquela entrada e saída automáticas, de refrescar. E chorar debaixo d’água, quando a coisa é realmente grave. Está tudo em casa.
Devagar – não em câmera lenta, mas de-vagar -, se desenganar sobre a temperatura da água, afundar e esvaziar.
Aí, depois de uns segundos no silêncio subaquático, meio misturada com a água, - sem os limites cotidianos, já estabelecidos entre eu e ar, do lado de fora da piscina, - tentar um nado. Retardado porque devagar e misturando diferentes tipos de braçadas e pernadas. Só para sair do lugar aos poucos. Locomovendo-se, os limites do eu e não-eu ficam um pouco mais claros.
A água é gostosa com olhos abertos e sol fazendo rasgos refratados. E sufocando, quando os pulmões começam a pifar e têm espasmozinhos angustiados. Você emerge em socorro a eles, quando atinge um limite, o corpo esmorece.
Separações - Vamos foder o dia inteiro?
(Source: youtube.com)
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