Olhos nos olhos - Chico Buarque

Samba da Benção - Vinícius de Moraes

"A gente nasce, a gente cresce
A gente quer amar
Mulher que nega
Nega o que não é para negar
A gente pega, a gente entrega
A gente quer morrer
Ninguém tem nada de bom sem sofrer
Formosa mulher"
— Vinícius de Moraes
Através

Aquela dorzinha constante: você não abre mão, faz questão dela, vocês formaram uma parceria, é um compromisso sólido, garantido. Você e a sua dor, de mãos dadas pela vida. Ela incomoda, faz sofrer, mas você está habituado, ela pertence.

A gente não consegue se adequar à felicidade, é muito complicado. Como lidar bem com ela se a gente não se apropria do que acontece com a gente? Acontece e vai embora, se esvai, escorre por entre os dedos desesperados em conter o transbordamento. Não dá pra explicar o que aconteceu com você, as palavras não são suficientes. Nunca é possível explicar, nunca! Isso não é enlouquecedor?

Fica aquilo meio esotérico, meio duvidoso, pela metade, então meio distante, mais distante e lá está você, atracado com a bicha louca outra vez, a dor, parceira de fundo de poço, com ela você sabe viver. Com a felicidade da qual você não pode se apropriar, mesmo sendo sua, com essa não dá pra viver.

The horror

(…) A insatisfação crônica é inerente à nossa condição humana e até que os cientistas fabriquem a bola da felicidade, assim será. Mas eis que aceitando e vivendo tudo isso até o talo, dei um jeito de escapulir, para um cenário aparentemente sem solução até agora. Aí advenho, em toda minha doença, toda minha neurose suja, nojenta, impiedosa: uma angústia enorme, um medo paralisante, de estar paralisada, presa nesse lugar mesquinho. Que lugar? Eu também não sei, mas sinto medo de tudo, de qualquer movimento, de qualquer companhia que não a minha própria. E fico parada, correndo o risco de que tudo siga em frente, e eu fique aqui. (…)

O Gambá

Sendo feio, sujo, torto e estranho, apareceu com fuso trocado. Ninguém espera gambá no canteiro de manhã. De manhã são os gatos, à noite trocam. A hora da aparição nem foi o que mais chocou os que passavam, o susto do gambá pela manhã, porque a inadequação daquele animal para o mundo à sua volta era mais gritante.

De manhã os gatos. Bonitos, elegantes, discretos. De noite, quando as pessoas não estão mais ali, gambás - com toda sua falta de compostura. Esse do qual falava, que se perdeu nas horas, deixou muitos humanos ofendidos, de tão esfarrapado que era. “Deve estar morrendo”. As pessoas não podem aceitar que algo tão feio seja saudável. A vida é bonita, o gato é muito vivaz, o gambá, coitado, está nas últimas. Se não estiver, preferimos acreditar que esteja. As coisas são assim.

Dava pena, era até fofo de tão feio, tão errado, tão repudiado e sozinho. Deve ser difícil, vida de gambá careca. Antes de refletir um segundo a mais sobre isso, correndo o terrível risco de se identificarem com a criatura, todos preferem desviar e seguir andando.

"Não, talvez não seja isso. As palavras me antecedem e ultrapassam, elas me tentam e me modificam, e se não tomo cuidado será tarde demais: as coisas serão ditas sem eu as ter dito."
— Os Desastres de Sofia - C.L.
A Legião Estrangeira

(…)

Depois que rimos, Ofélia pôs o pinto no chão para andar. Se ele corria, ela ia atrás, parecia só deixá-lo autônomo para sentir saudade; mas se ele se encolhia, pressurosa ela o protegia, com pena de ele estar sob o seu domínio, “coitado dele, ele é meu”; e quando o segurava, era com mão torta pela delicadeza — era o amor, sim, o tortuoso amor. Ele é muito pequeno, portanto precisa é de muito trato, a gente não pode fazer carinho porque tem os perigos mesmo; não deixe pegarem nele à toa, a senhora faz o que quiser, mas milho é grande demais para o biquinho aberto dele; porque ele é molezinho, coitado, tão novo, portanto a senhora não pode deixar seus filhos fazerem carinho nele; só eu sei que carinho ele gosta; ele escorrega à toa, portanto chão de cozinha não é lugar para pintinho.

Há muito tempo eu tentava de novo bater a máquina procurando recuperar o tempo perdido e Ofélia me embalando, e aos poucos falando só para o pintinho, e amando de amor. Pela primeira vez me largara, ela não era mais eu. Olhei-a, toda de ouro que ela estava, e o pinto todo de ouro, e os dois zumbiam como roca e fuso. Também minha liberdade afinal, e sem ruptura; adeus, e eu sorria de saudade. 

Muito depois percebi que era comigo que Ofélia falava. 

— Acho — acho que vou botar ele na cozinha. 

— Pois vá. 

Não vi quando foi, não vi quando voltou. Em algum momento, por acaso e distraída, senti há quanto tempo havia silêncio. Olhei-a um instante. Estava sentada, de dedos cruzados no colo. Sem saber exatamente por quê, olhei-a uma segunda vez:

— Que é? — Eu…? 

— Está sentindo alguma coisa? 

— Eu…? 

— Quer ir no banheiro? 

— Eu…? 

Desisti, voltei à máquina. Algum tempo depois ouvi a voz: 

— Vou ter que ir para casa. 

— Está certo. 

— Se a senhora deixar. Olhei-a em surpresa: 

— Ora, se você quiser… 

— Então, disse, então eu vou.

Foi andando devagar, cerrou a porta sem ruído. Fiquei olhando a porta fechada. Esquisita é você, pensei. Voltei ao trabalho.

Mas não conseguia sair da mesma frase. Bem — pensei impaciente olhando o relógio — e agora o que é? Fiquei me indagando sem gosto, procurando em mim mesma o que poderia estar me interrompendo. Quando já desistia, revi uma cara extremamente quieta: Ofélia. Menos que uma idéia passou-me então pela cabeça e, ao inesperado, esta se inclinou para ouvir melhor o que eu sentia. Devagar empurrei a máquina. Relutante fui afastando devagar as cadeiras do caminho. Até parar devagar à porta da cozinha. No chão estava o pinto morto. Ofélia! chamei num impulso pela menina fugida.

A uma distância infinita eu via o chão. Ofélia, tentei eu inutilmente atingir à distância o coração da menina calada. Oh, não se assuste muito! às vezes a gente mata por amor, mas juro que um dia a gente esquece, juro! a gente não ama bem, ouça, repeti como se pudesse alcançá-la antes que, desistindo de servir ao verdadeiro, ela fosse altivamente servir ao nada. Eu que não me lembrara de lhe avisar que sem o medo havia o mundo. Mas juro que isso é a respiração. Eu estava muito cansada, sentei-me no banco da cozinha.

Onde agora estou, batendo devagar o bolo de amanhã. Sentada, como se durante todos esses anos eu tivesse com paciência esperado na cozinha. Embaixo da mesa, estremece o pinto de hoje. O amarelo é o mesmo, o bico é o mesmo. Como na Páscoa nos é prometido, em dezembro ele volta. Ofélia é que não voltou: cresceu. Foi ser a princesa hindu por quem no deserto sua tribo esperava. 

Clarice Lispector

"(…) Mas você sai perdendo. Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo. Sou uma pessoa muito medrosa. Tenho problemas reais gravíssimos que depois lhe contarei. E outros problemas, esses de personalidade. (…) Se quer, não me diga que não lhe avisei."
— Clarice em carta à Olga Borelli

Não ofereça nada

Não me dê o que eu peço

porque não é isso que eu quero

Não dependa de mim

Não conte comigo

Eu não gosto de você

Gosto tanto que te detesto

Não gosto que você também goste

Nem que pareça indiferente

Não sei bem se é sobre mim ou você

Isso que enlouquece

"Eu lhe peço isso, mas, na verdade, peço-lhe que recuse meu pedido, porque não é isso!"
— Zizek (sobre a lógica da demanda histérica)
"Eu te amo,
Mas, porque inexplicavelmente
Amo em ti algo
mais do que tu -
o objeto a minúsculo,
Eu te mutilo."
— Sem.11 - Lacan
Gelo

Responde.

Fala comigo.

Eu não tenho orgulho nenhum nessas horas, vou continuar falando, ligando, ligando outra vez.

Pode falar qualquer merda, pode gritar, xingar, me mandar parar de ligar, de chamar, mas FALA comigo, me responde!

Não há nada mais aflitivo do que o silêncio para uma mente criativa e auto-sabotadora.

Não deixa no escuro. Não ignora, não faz pouco caso disso. Era pouco, mas virou muito no momento em que foi tratado assim.

"Não, não quero mais gostar de ninguém porque dói. Não suporto mais nenhuma morte de ninguém que me é caro. Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas - e eu não posso perdê-las sem me perder"
— C.L.
"Seus conselhos. Mas existe um grande, o maior obstáculo para eu ir adiante: eu mesma. Tenho sido a maior dificuldade no meu caminho. É com enorme esforço que consigo me sobrepor a mim mesma. […] Sou um monte intransponível no meu próprio caminho. Mas às vezes por uma palavra tua ou uma palavra lida, de repente tudo se esclarece."
— Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres
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Themed by: Hunson
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