Controle Remoto

Canais aleatórios.

Acordamos e sentamos na varanda. Sítios são cozinha, varanda e verde. A manhã é lenta. Faz-se café pensando no almoço. Um bouganville acima da rede, o sol da serra e o som de violões. Alguém lia, outro alguém cantarolava, outro mirava longe. Um barulho alto de repente reuniu a atenção de todos nós. Uma pomba que bateu na vidraça da janela da sala. Caiu viva ainda, todos olhando. Morreu em menos de um minuto. Enterramos e foi uma pena.
— Passará
#18 Verde-água, azul-marinho.
Achava que o mar fosse verde. Mostrando o desenho ao pai: o céu azul, o mar verde. Mas é azul o mar, convenceram-na. Então passou a dizê-lo azul, entendê-lo azul, quem sabe até desenhá-lo azul. Mas o pensa verde.
Tua pessoa, Maria. Mesmo que doa, marinha. View high resolution

#18 Verde-água, azul-marinho.

Achava que o mar fosse verde. Mostrando o desenho ao pai: o céu azul, o mar verde. Mas é azul o mar, convenceram-na. Então passou a dizê-lo azul, entendê-lo azul, quem sabe até desenhá-lo azul. Mas o pensa verde.

Tua pessoa, Maria. Mesmo que doa, marinha.

Permanece no jarro
O cadáver do girassol
Cuja morte e resquícios
Escolho ignorar
Deixo lá, cadáver sendo
Tanto quanto flor terá sido
Por mim, assim ficaria:
A morte enfeitando minha sala
No início do sono
veio poesia
Era de nota
ou de luto
Acordei sem lembrar
sequer o assunto

#17 ENCRUZILHADA E UM CAUSO

Então foi nela que instituíram a redenção:

Um talho e um teto

Um golpe e um amparo

 

Pr’essa gente inocente que merece socorro

Por ser índio

Por ser ignorante

Por ser criança

Por ser doente

Por ser doido

Por ser triste

Por ser uma ameaça

Por ser eu Por ser você

Um talho e um teto

Um corte e um limite

Um hiato e uma borda

 

Não sofra, vó, se não caso na igreja

Não carrego essa cruz que colocam no altar

Nem me apetece o cale-se

 

Eu sou aqui

De onde gritam que somos todos

Crucificados em sintomas

Que cortam, que talham

Que nos dão um teto

Diferentes

 

# UM CAUSO

 

O Zézinho, peão do sítio, me ensinou a andar a cavalo. Uma vez andamos tanto que passamos da poça. Eu não sabia o que era a poça, nem a vi, mas foi o que ele disse. Era longe, mais do que a cachoeira, que era o maior limite que eu havia atingido cavalgando, até o dia da poça. Um dia, não sei se este, passamos num chão bom para correr e aprendi a galopar. Era tão rápido que me dei conta de que o cavalo tinha o poder total, embora eu segurasse as rédeas. Se ele tropeçasse sem querer, ou de propósito, se me odiasse, ou odiasse sua profissão de cavalo que galopa comigo na garupa, podia me lançar longe de tal maneira que eu jamais sobreviveria. Ele não pensou em nada disso, ou teve piedade de mim. Só lembro que me sentia muito livre, embora livre fosse ele, embora ambos tão pouco livres fossemos, e tudo em volta era predominantemente amarelo. Um talho: constatar minha impotência diante da possível vontade de um cavalo. Um teto: a fé, não na brida em minhas mãos, mas na submissão equina.

http://revistahiato.tumblr.com/post/47494271705/17-encruzilhada-e-um-causo

#16 NÓ

Quando é não: para um não dá, para dois desata. Ficara por demais doído, então um decidiu renunciar. Não fale assim, não há sentido em sair sentindo ainda amar. É uma pena, mas é dura a pena e dura um tempo longo demais. Era amor apenas e ficou doido, ficou doído e, de repente, melhor se evitar.
Desiludido aquele que vai e também o que implora para voltar. Não se ocupa, para o outro, onde se supõe estar. Tampouco se coloca aquele no mesmo lugar. É tão difícil essa coisa de amarrar. Meio suicida, meio complicada, meio arriscada, toda caduca. Tem que ver bem, equilibrar, sentir uma falta imensa (inclusive na presença), tem que muito especular. Gente não se incorpora, não se engole e, portanto, não se cansa de escapar.
É de tanta confiança, colocar-se assim fragilizado, como pode alguém topar? Leva-me, pronto, é escolha minha: estou em suas mãos e, quando cansar, me quebre da forma que lhe convier. O amor é fúnebre. No entanto topam aos montes por aí. Às vezes funciona por um tempo considerável, esse poder não controlar.
Mas os desiludidos rumam para fora do dilema, de volta ao buraco de seu próprio umbigo. Não cabe o interesse de mais uma pessoa por lá. Seus (ex)pares, tão desiludidos quanto, logo têm o entorno invadindo sua angústia, na pretensão de apaziguar: isso passa, você é forte, logo, logo passará. De boas intenções o inferno está cheio. E de grandes amores, quem dirá?

Garra

As camadas de esmalte vão se destacando e levando consigo uma fina camada da unha. O processo dura bastante, até todo o pigmento ser removido. O barulho se assemelha ao de unhas quebrando ou sendo cortadas. É repetido ritmicamente, enumeras vezes, por algumas horas. Ela não se importa. Já não ouve, ou não dá a menor atenção. O que ocorre em seus pensamentos e acomete sua percepção no momento não guarda relação alguma com o movimento de descascar esmalte, seu barulho ou os resíduos que restam dele. Sim, guardam, mas com pensamentos de algum lugar que ela não consegue acessar. O mesmo lugar do qual questões tão profundas quanto mandam notícias de sua existência obscura através de outros cantos do corpo, que ela também não sabe como ouvir. Tão alheia está, das questões e dos sintomas, que anda sendo dominada por fungos, bactérias, vírus, preguiça e culpa. Olha aflita para tudo isso, constatando que há ali mais do que é capaz de entender, mas não chega perto de nenhuma saída. Talvez não queira se aprofundar tanto assim nisso, no fim das contas. A prova seria mil e seiscentos metros de profundidade, chegar ao fundo, tocá-lo e voltar à superfície. Não há outra saída para o mergulho, senão a mesma pela qual se entrou. É perigoso querer emergir com rapidez, porque alguma coisa com a pressão e os gases no sangue. Em suma, contaram-me que há risco de você explodir. Como a pessoa sentada ao lado explodiu com o barulho das unhas descascando o esmalte. Para ela era tão suave, a camada de plástico desgrudava conforme ia puxando o primeiro pedacinho que conseguia descolar, saindo uma película colorida, um plastiquinho todo perfeitinho de tão liso. Para a outra, a representação de um atrito aflitivo, a mutilação das unhas, o barulho delas rachando, um inexplicável nervoso nos dentes que se associa à suas angústias no geral. Aceitou parar com aquilo, em prol da sanidade da vizinha. Achou-a estranha, como um ser de outra espécie, totalmente distinta da dela. Provavelmente, nada têm em comum. Mas gostavam-se, contudo e apesar de. Porque gostar de alguém é assim, aceitando o que se detesta no outro e tentando um meio termo suportável. Distraíram-se e logo estava novamente descascando. Não fez por mal, mas fez.

Pr’onde fosse
Mar não houvesse
Que calabouço de respirar
Doce amplitude, Maria
Peixe respira
No mar
— marinha

#15 HISTÓRIAS CURTAS SOBRE A VIDA TODA

1.

Sentados no bar para tratar a dor de cotovelo de um dos tripés daquela amizade infantil. Foram dez anos, agora o infeliz indagava a seus dois amigos como é que o deixaram tanto tempo com aquela estranha. “Quem era ela?”, esfregava o rosto, em choque. Mas, entre os soluços embriagados, a questão que mais o fazia se exaltar era “onde eu estive esse tempo todo?”. Lá passaram a madrugada. O sujeito repetindo as perguntas e lembrando-se de causos. Lá passaram diversas madrugadas e passam ainda.

2.

Precisava decidir-se pelo vestido preto liso ou o rendado. Ambos eram muito bonitos, recatados e favorecedores. Ela sempre fora uma mulher lindíssima. A idade não mudou seu corpo em quase nada, nem mesmo a gravidez. Ainda parecia, de longe, uma garota de dezenove anos com tudo em cima, embora estivesse chegando aos quarenta. Preocupava-se com a aparência e as aparências. Escolheu o rendado e uma maquiagem simples, que disfarçasse o abatimento e não sofresse grandes alterações por causa das lágrimas. Encarou o espelho por alguns minutos, acostumando-se com sua imagem, consequência de todas as escolhas que fez antes deste momento. Aceitou o reflexo, pegou a bolsa e foi para o velório de seu único filho.

um rascunho

No topo do mundo, tornado

Na terra dos maiores crimes

E maravilhas humanas

No continente que também nos é mátria

Podre e bela como só ela

Amor rico, também guerra,

Cara do mundo, Terra

Perspectiva de amplitude tempestuosa

Entre Eros e Thanatos, bela;

Entre vênus e marte, ela

Caleidoscópio luneta

Para ampliar

Aproximar

E ver:

No olho do furacão,

Você.

#14 ALIENAÇÃO

Dois meses viajando. Havia um prazo, havia um mundo de coisas em volta. Catou passaporte, avisou aos mais próximos e se mandou pra uma praia, com verbas da editora. É bom quando se tem algum prestígio e alguém banca essas manias. Levou o computador e alguns biquínis na mala. Uns poucos livros, uns treque-treque, cosméticos, coisas assim… Que de tão rotineiras já fazem parte da gente. Passou os dois meses lá, fotografou muito e terminou o romance. Voltou com uma ideia nova, para uma próxima empreitada literária, talvez utilizando as fotos desta viagem no mesmo trabalho. Esperava a bagagem na esteira, com o laptop embaixo do braço, numa sacola mequetrefe de feirinha praiana – fez revisões no texto durante o voo. A mala foi extraviada com a câmera, todos os filmes utilizados e com as aquisições materiais daqueles dois meses inspirados. Foi para casa e aguardou. Muitos contatos feitos com a companhia aérea depois, entendeu que estavam lhe aconselhando a parar de esperar. A mala não viria, estava perdida. Foi indenizada, escreveu sobre o ocorrido. Ligou para a editora desculpando-se e em seguida pegou o tal computador e jogou-o pela janela de seu apartamento, no décimo segundo andar. Não vale a pena oferecer a coisa incompleta, mesmo que só ela soubesse daquilo que não conseguira trazer de viagem.

*

A bolsa ou a vida? A vida, lógico. Se escolher a bolsa, fica sem nenhuma das duas. Uma vida de nostalgia pela bolsa, então? Não necessariamente pelo seu conteúdo, mas pelo que poderia ter vindo com ela. O que poderia não ter se perdido no caminho?

http://revistahiato.tumblr.com/post/43931300050/14-alienacao

#14 NON PUÒ FARE

revistahiato:

Não cabem na palavra ou na mochila

As coisas que formam mundo para alguém

Esta precisaria abarcar muitos alguéns outros,

Que mal sabem de si palavra,

E tampouco são dimensionados para caberem em Uma

mochila

Precisaria ainda

Bastante papel

(sem registros, a memória trai)

Das outras coisas não sei

Mas sozinho e sem registros

Haveria ninguém,

Carregando uma bolsinha

***

Fernanda Pougy

Somos carne e, uma vez ao ano, durante poucos dias, com o aval de sê-lo. Aos que são de serpentina, aos que fogem dela, o signo pulsa. É celebração do prazer. Seja na rua, debaixo do sol, com pouco conforto, ou num refugio bem longe destas manifestações, é da carne que se vibra. É Baco quem recebe maiores louvores, mas Eros é quem se regozija pleno. No arrepio do casal que se lambe sem preocupar-se em perguntar o nome daquela outra língua; ou se aquele minuto de tesão será o único que terão perto um do outro na vida. No casal antigo que pouco transa e vai para a rua fantasiado, fantasiando orgias que desincluem o parceiro oficial. Em todo e qualquer contato entre peles que ocorra, nas trocas de olhares, nas cores vibrantes, surdo vibrante, calor vibrante, tudo vibrante. O mundo goza no carnaval.

NORMAL ESTAR

Quando a verdade escondida acha saída pelos poros

Na angústia que se presentifica no estômago

No impulso que diverge do raciocínio lógico

Nos equívocos em uníssono ao que se permite contar

No sangue da calcinha

Nas contrações uterinas

No descontrole alimentar

Em sempre meio-estar

No sobreaviso de que a qualquer momento partirei

Quando quase

Quando o desejo atropela desejos alheios

Em guardar um segredo

Quando em sonho

Ao acordar no susto

Em suspiros de quem se sente muito

***

http://revistahiato.tumblr.com/post/43106034973/13-normal-estar

#12 I AND THE VILLAGEIComo administrar isso que é corpo e lataria? Já não fosse complicado o suficiente, usava um automóvel, estendendo seus limites ao tamanho da máquina. Enguiçada estava. Ela inteira, atravessada no cruzamento, catatônica. Impedia a passagem de muita gente, mesmo sentindo-se tão pequena. As coisas concretas não funcionam em sua vida. Ela enguiçada, de corpo e lataria, presa no meio do caos, império do não-sentido. Nunca mais poderia se mexer.IIAlgo aconteceu, foi muito grave. Então todos começaram a se rebelar contra a ordem estabelecida. Desordem, desordem! Houve um plebiscito e o resultado foi a favor da revolução. Trocaram a antiga ordem por uma mais ordenada. Um retrocesso enfeitado com pitadas de novidades conquistadas pelos humanos recentemente, mas nada em excesso. Aquilo que se ajeitava de um jeito frouxo antes, agora seria exato, amarradinho. Porque tudo que existe pode ter pra si um lugar determinado. É só dizerem “é assim que é” e abolirem a possibilidade de questionar. Foi assim por opção de todos: ergueram muros em torno dali, com muitos metros de altura – o resto do mundo não poderia intervir. Acabaram com essa coisa de tecnologia, internet, telefones, coisa e tal. Os casamentos voltaram a ser arranjados pelas famílias, ao adolescer de suas crias. Mulher nascia para casar com um homem e produzir filhotes perfeitos, dedicando-se integralmente a isso. Aquela antiga ordem falhou e a culpa é das mães. Instituíram leis rígidas cuja transgressão perigava resultar em pena de morte. Antes que a coisa desandasse, trataram de elaborar uma religião muito conservadora e radical, para docilizar as pessoas e mantê-las controladas pela moral e bons costumes. Muito, muito investimento na anatomopatologia – o lema “qualidade de vida e longevidade”. Nada de ser perecível ao tempo, isso é fraqueza e falta de know-how. Lá eles descobririam métodos de fazer a manutenção dos organismos até limites impensáveis. Todas as energias se voltavam para a produção deste saber técnico do corpo. Ninguém perguntaria nada, nem existiam mais os pontos de interrogação. Os loucos eram submetidos a lobotomias, numa chance para se ajeitarem nos eixos, mas quase sempre morriam ou viravam amebas, estorvos para aquele exemplo de civilização. Decidiu-se por abandoná-los fora da fronteira, pra lá do muro.Dizem que é muito mais fácil a vida assim, sem espaço para perguntas.
 
***
http://revistahiato.tumblr.com/post/41624557505/12-i-and-the-village-i-como-administrar-isso-que View high resolution

#12 I AND THE VILLAGE
I
Como administrar isso que é corpo e lataria? Já não fosse complicado o suficiente, usava um automóvel, estendendo seus limites ao tamanho da máquina. Enguiçada estava. Ela inteira, atravessada no cruzamento, catatônica. Impedia a passagem de muita gente, mesmo sentindo-se tão pequena. As coisas concretas não funcionam em sua vida. Ela enguiçada, de corpo e lataria, presa no meio do caos, império do não-sentido. Nunca mais poderia se mexer.
II
Algo aconteceu, foi muito grave. Então todos começaram a se rebelar contra a ordem estabelecida. Desordem, desordem! Houve um plebiscito e o resultado foi a favor da revolução. Trocaram a antiga ordem por uma mais ordenada. Um retrocesso enfeitado com pitadas de novidades conquistadas pelos humanos recentemente, mas nada em excesso. Aquilo que se ajeitava de um jeito frouxo antes, agora seria exato, amarradinho. Porque tudo que existe pode ter pra si um lugar determinado. É só dizerem “é assim que é” e abolirem a possibilidade de questionar. Foi assim por opção de todos: ergueram muros em torno dali, com muitos metros de altura – o resto do mundo não poderia intervir. Acabaram com essa coisa de tecnologia, internet, telefones, coisa e tal. Os casamentos voltaram a ser arranjados pelas famílias, ao adolescer de suas crias. Mulher nascia para casar com um homem e produzir filhotes perfeitos, dedicando-se integralmente a isso. Aquela antiga ordem falhou e a culpa é das mães. Instituíram leis rígidas cuja transgressão perigava resultar em pena de morte. Antes que a coisa desandasse, trataram de elaborar uma religião muito conservadora e radical, para docilizar as pessoas e mantê-las controladas pela moral e bons costumes. Muito, muito investimento na anatomopatologia – o lema “qualidade de vida e longevidade”. Nada de ser perecível ao tempo, isso é fraqueza e falta de know-how. Lá eles descobririam métodos de fazer a manutenção dos organismos até limites impensáveis. Todas as energias se voltavam para a produção deste saber técnico do corpo. Ninguém perguntaria nada, nem existiam mais os pontos de interrogação. Os loucos eram submetidos a lobotomias, numa chance para se ajeitarem nos eixos, mas quase sempre morriam ou viravam amebas, estorvos para aquele exemplo de civilização. Decidiu-se por abandoná-los fora da fronteira, pra lá do muro.
Dizem que é muito mais fácil a vida assim, sem espaço para perguntas.

 

***

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