Nina é o retrato da mulher moderna. Determinou, desde cedo na vida, que seria o contrário de sua mãe. Despreza veementemente suas semelhantes de espécie que se submetem aos maridos, que vivem à disposição deles, cuidando das trivialidades do lar, da criação dos filhos, da limpeza, bom gosto, boas maneiras. Ela fez por onde para garantir sua independência. Conseguiu ser bem sucedida em sua carreira, tem boas amizades, teve alguns relacionamentos harmoniosos, mas, como nunca considerou o casamento uma opção, acabava pulando fora quando começava a se sentir muito envolvida emocionalmente.
Com seus 32 anos, julgava-se uma mulher bem-resolvida. Criou uma ONG com finalidade de divulgar e combater a degradação que o mundo atual provoca ao meio ambiente. Essa era sua causa, o planeta terra, não uma estrutura familiar socialmente aprovável. Conseguiu muito apoio financeiro quando as grandes empresas começaram a usar a sustentabilidade como jogada de marketing e com isso promovia seu trabalho, podendo, com a boa condição financeira obtida, expandir suas pesquisas. Era chamada para palestrar em diversas universidades dentro e fora do país, estava no topo.
Sua angústia era se entregar. Uma mulher independente deve ser racional. Nina não tem espaço em sua vida para dor de cotovelo, insegurança, mas acreditava que poderia perfeitamente ser feliz sozinha, era suficiente para ela o trabalho. A única coisa realmente importante e nobre no mundo atualmente, na visão de Nina, era defendê-lo da destruição. Se envolvia com homens até perceber que estava começando a mudar suas prioridades. Aí era hora de dar um ponto final.
Mesmo se reconhecendo meio fudida emocionalmente, sua vida era movida a paixão. Ela é uma mulher de visão, não veio ao mundo de brincadeira, veio pra fazer a diferença. Ás vezes era cansativo pra ela, porém, trabalhar em campanhas pró-meio ambiente, numa era onde todos estão cegos pelo impulso de consumir, sem se importarem em como poderão viver amanhã. Ela admitia sentir certa raiva das pessoas. Será que ninguém mais, além dela, raciocinava? De qualquer forma, fazia sua parte. Ela sim é um ser humano digno de estar vivo, os outros são apenas egoístas, coitados, isso não era problema dela.
Como costumava acontecer freqüentemente, uma amiga encarnou o cupido e insistiu para que ela marcasse um encontro com um amigo de seu marido, porque “ele era um príncipe”, e Nina precisava tirar a cabeça da camada de ozônio de vez em quando. Acabou aceitando, embora se sentisse acusada de encalhada nesse tipo de situação, fazia bastante tempo que não saía com um cara.
Ela se lembrou do tamanho do amor que sentia por sua amiga quando chegou no bar e viu como ele era lindo. As duas já tinham conversado bastante sobre as informações básicas dele. Segundo a amiga, Carlos, o príncipe, gostava de esporte, de arte, de filosofia e trabalhava com marketing numa grande empresa. Tinha tudo que Nina achava atraente num homem.
Como sempre acontece com todo mundo que está se conhecendo, os dois começaram a conversar sobre o que faziam da vida, seus ofícios. Ela sabe que sempre se empolga e fala demais sobre as causas que defende, mas não consegue se controlar. O que ela faz é o único sentido que ela vê em estar viva, é o que escolheu e sabe fazer, por isso sente enorme prazer em falar do assunto. Quando percebe está monologando, praticamente pregando uma religião, em meio a gestos e expressões faciais exageradas. Sabia-se uma mulher interessante, tinha confiança no que estava dizendo. Ele achou bonitinho.
Quando Carlos, por sua vez, explicou que trabalhava em uma grande empresa de tabaco, Nina ficou desconcertada. Ele ganha dinheiro estimulando pessoas a se matarem em doses homeopáticas? – ela pensou – É certamente bom em sua profissão, afinal, precisa ser para bolar estratégias que convençam a massa, há muito informada sobre os males conseqüentes do tabagismo, a passar por cima dos próprios instintos de sobrevivência e optar por fumar. Mas isso indicava algo decisivo, no entendimento dela, sobre seu caráter.
O diálogo tornou-se hostil. Nina criticou o modo dele de ganhar a vida, usando qualquer eufemismo pouco convincente para chamá-lo de assassino. Ela lutava todos os dias para despertar as pessoas para o instinto de sobrevivência. Porque as pessoas se sabotam dessa forma? Aquilo começou a tirá-la do sério. E ele obviamente não fuma – pensava -, de certo sabe melhor do que ninguém que cigarro mata. Ele era o modelo do egoísmo, era o egoísmo em carne e osso, ganhando dinheiro para destruir vidas, sem sentir o menor remorso. Nina estava escandalizada, o príncipe virou um monstro, nem de sapo poderíamos chamá-lo.
- Você não está sendo um pouco radical? – ele, com a voz inabalada pelas acusações.
- Impossível. Justifiquei minhas opiniões, estou julgando seu caráter sim, mas com base no que você mesmo falou sobre si.
- Eu na verdade fumo ás vezes, mas como prejudica meu desempenho no remo e é um exemplo ruim para minha filha pequena, fumo raramente, em festas e situações do tipo.
- Pior ainda! Além de egoísta é hipócrita. Faz o tipo geração saúde e fuma. Belo exemplo pra sua filha, parabéns.
- E você acha que por trabalhar com meio ambiente não é egoísta? Também já ouvi sobre seu histórico, – disse em tom zombeteiro – sua altruíssima decisão de ser sozinha na vida e dedicar-se exclusivamente a uma causa maior, só não sabia que era nesse nível. Agora, em vez de admirar, diria que você é covarde. E cabeça-dura. Sabia que as empresas de tabaco hoje em dia inclusive investem em sustentabilidade? – Levantou uma das sobrancelhas e deu uma risadinha abafada. – Lida com campanhas, computadores, tabelas, números, platéias, telefones, tudo menos pessoas, cara a cara, laços afetivos de verdade. Por isso covarde, acho que você sente medo das pessoas, sente medo de amar alguém.
- Eu tento salvar as próximas gerações, pessoas! Sacrifico todas as minhas energias para que a humanidade possa continuar sendo estúpida e sentimental por muito tempo. Como é que você pode criticar meu trabalho?
- O que você tem a ver com o futuro? –sustentando a mesma expressão tranqüila, o tom de voz macio, mas sentindo prazer em provocá-la - Você nem vai estar aqui! Nem filhos tem, provavelmente nem terá, qual é seu interesse nisso? Ser canonizada? Quer admiração por sua tamanha bondade e altruísmo? Para mim o nome disso é egoísmo. Você faz tudo isso para atingir o que colocou como ideal. Não é altruísta, o que você faz está repleto de interesses próprios. Parabéns pra você também, vai morrer vangloriada e sozinha.
Ela é uma mulher bem-resolvida, racional, fazendo a diferença no mundo. “Não sou?”, pensou por um segundo. Sentiu os olhos lacrimejarem um pouco, e uma leve tonteira.
- Vou ainda dizer mais uma coisa, porque estou vendo que consegui abrir alguma brecha nessa cabeça dura. Você se ilude achando que é onipotente. Eu não sou um ogro, nem sou hipócrita. Eu sou uma pessoa normal, meio ferrada, como a maioria. Ganho bem, gosto de dinheiro, e porra, quem vive sem ele hoje em dia? Estamos numa recapitulação da selva, é cada um por si. Tem gente que vive melhor por fumar, acredite, cada um faz o que pode com suas angústias. Poderia te dar aqui mil argumentos que mudariam sua opinião sobre o cigarro, mesmo que pouca coisa, mas essa não é mais a questão.
As palavras eram duras, mas em tom sempre macio. Ele estava calmo, ela não conseguia entender aquilo. Havia algo de contente nele, talvez por perceber o que acontecia ali. Ele estava furando a bolha que Nina construiu para viver, apenas por mostrar um pouco da sua própria e ser sincero em suas críticas. Ela se confundia mais a cada palavra que ele acrescentava naquele discurso. Se ao menos ele berrasse, se mostrasse agressivo e grosseiro, ela poderia ignorar melhor o que estava ouvindo, tachando-o de crápula, mas não, era um bombardeio quase… carinhoso?
- Quero te dizer que você não é onipotente, não pode mudar o mundo, ou a cabeça de todas as pessoas, mas acho bonito que tente. Alguém precisa tentar, espero que sempre tenha alguém que o faça. Mas você precisa entender que a vida é aqui, agora. Não no futuro. Imagine se amanhã começa uma guerra mundial. Com a potência bélica que a tecnologia permite existir hoje, todos poderíamos morrer com radioatividade, sei lá! Tudo pode acontecer. Qual é o sentido de abrir mão da sua vida pessoal, de vivê-la direito, pensando em fazer alguma coisa para que talvez, oh! Quem sabe, o mundo possa não ser tão fodido quanto os estudos projetivos apontam que ele será?
Com a voz um pouco trêmula, Nina respondeu – para mim, isso é o único ‘viver direito’ que existe. – e levantou, saiu do bar sem se despedir, dirigiu até seu apartamento com mil pensamentos freneticamente em sua cabeça.
Que filho da puta, pensava, com a expressão vazia no rosto. Carlos desestruturou a certeza dela de que sua existência tinha um sentido, sem fazer mais do que mostrar para ela o ponto de vista dele sobre o mundo. Ele não é o dono da verdade, o bem para uns não é o bem para outros. Afinal, o que é a verdade? Viver a vida pessoal direito tem que incluir uma família? Aquilo foi insustentável para Nina, por alguma razão. Talvez ninguém nunca tenha se referido ao estilo de vida dela sem vangloriá-la, talvez qualquer outro motivo.
Enfim chegou a seu apartamento, ainda muito confusa. Abriu todos os vidros e foi para a varanda. E agora? O que ela tinha que fazer agora? Sua existência era tão mísera e insignificante como a de todas as outras pessoas? Todos os egoístas, consumidores compulsivos, influenciados pela mídia, todos os humanos-amebas sem raciocínio próprio que ela tanto abominava eram, na verdade, tão humanos quanto ela? Que vida é essa? Ela é uma mulher moderna, forte, racional, bem-resolvida, digna de estar no mundo. Nina só sabe viver assim, sempre foi desta forma.
Olhou para a rua lá embaixo, do parapeito da varanda, do alto de seu apartamento no décimo oitavo andar. Os carros passando em baixa velocidade, tão distantes, e a brisa batendo um pouco fria, porque já estava tarde. Era tão alto que dava até um pouco de vertigem. Qual é o sentido de viver agora?