Franzir a testa, contrair o rosto em angústia, rasgar a garganta, num grito agudo e desafinado que rompe tímpanos e quebra vidros em um raio de muitos kilometros. Segue até o estomago retorcido, cheio de ácido que, em gastrite, desgasta as paredes, corroendo como enferrujamento. Está enferrujado o estomago que não é de ferro, muito pelo contrário, era de borboletas e elas já morreram com o ácido da crise de cólera, rancor e saudades de um tempo que nunca existiu. Em ondas do rosto pra garganta, pro estomago, pro corpo. A angústia é em ondas constantes. Os músculos tencionam e sentem vontade de socar o poodle que passa pela rua, porque a raiva na verdade não tem objeto definido, está espalhada. O ódio é verso do amor e nesses casos a pessoa ama demais, e mais de um objeto, que já tem outros objetos, ou não tem de fato, mas outros objetos também existem, como nesses casos que dizia antes, pra pessoa que quer socar o poodle rosa porque a raiva não tem objeto, e são muitos os amores, e aí já temos uma cidade inteira, e não dá pra socar qualquer pessoa porque se ama ou se odeia, porque se ama e se odeia, porque não. Então o poodle rosa ou uma moto barulhenta, que facilmente se tornam confortáveis de sentir raiva espalhada reunida no objeto errado, mas assim é mais fácil.