Você TEM QUE saber os mecanismos de transporte celular, comunicações neuronais e o funcionamento da maquinaria toda para entender a vida, a mente e tudo que acontece no ser humano. Sim, sim. Pois bem, eu sou um ser humano, vivo e vivo pra cachorro, que não tem a mais remota idéia de que existem dois rins aqui, em algum lugar entre minha pele da barriga e das costas. Só posso ter fé nisso, porque né, a ciência diz que a gente tem dois rins e cem bilhões de neurônios, e ela deve saber mais que eu.

Ainda sim, esse bando de reação tão explicadinha e cheia de fricote, quem viu elas acontecerem? Eu não vi, não estou vendo, não pretendo ver e nem que me paguem sinto curiosidade em vê-las. Eu não sou rim, eu não sou máquina e se abrirem minha barriga agora com uma faca pra me provar que tem todos os órgãos que estão no livro de anatomia dentro dela, assim que fecharem vão me ver duvidando novamente.

Porque eu não sinto essas coisas, eu não me esforço para a comida que eu insisto em não parar de comer seja digerida. Simplesmente é automático. E eu tenho mais o que fazer. Eu aqui tão preocupada com o cabelo, que é tecido morto, e tão indiferente à porcaria do rim. Como é que a ciência me explica essa autoconservação – leve meu rim, mas deixa meu cabelo em paz?

Como é que eu posso pensar isso tudo ao mesmo tempo em que me preocupo com quantas calorias vai ter o jantar que vou fazer daqui a pouco, qual roupa eu vou numa festa e quando é que eu vou conseguir não ter mil coisas na cabeça? Sendo que até o fato de querer não ter mil coisas na cabeça é mais uma coisa que ocupa minha cabeça e preocupa, e haja neurônio pra tanta xurumela! Também não vejo nenhum neurônio. Quem foi que decidiu que eles iam funcionar assim, me fazendo TER QUE tanta coisa?

“Eu cá com meus botões
De carne e osso
Eu falo e ouço
Eu penso e posso
Eu posso decidir
Se vivo ou morro por que
Porque sou vivo
Vivo pra cachorro e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
No meu caminho inevitável para a morte

Porque sou vivo
Sou muito vivo e sei
Que a morte é nosso impulso primitivo e sei
Que cérebro eletrônico nenhum me dá socorro
Com seus botões de ferro e seus olhos de vidro