[O que me interessa é o que se entende do coração. Ou a angústia de não entender, mas no nível representativo, não no anatômico. O senso comum nos ensina a atribuir essas coisas sentimentais ao coração e a gente acaba sentindo mesmo que é por alí que a coisa passa. Ele para, dispara, dói, em algumas músicas até sorri.]
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Eram um casal de pombinhos, durante anos. Pode ter sido a idade que levou a tamanho investimento, a tantos planos para o futuro, a tanta ilusão do que viria pela frente. Eles sabiam que se amavam e era simples assim. Ficavam juntos. Faltava experiência de desilusão amorosa, faltava descobrir que não é possível controlar a outra pessoa, que o tédio existe, que o sentimento muda, que tentações surgem e que, simplesmente, só amor não basta.
Um dia ela descobriu, mas não quis acreditar logo de início. O tempo fez tudo desandar, eles fizeram tudo desandar. Ela via que ele também já sabia, mas tinham medo do que podia acontecer se cada um fosse para um lado. E se ele se apaixonar por outra pessoa? Adiaram o sofrimento, prolongando a agonia.
Acabou acontecendo o inevitável e não posso dizer exatamente por quanto tempo o sofrimento da distância durou. Muito provavelmente ele ainda existe, porque dentro de cada um alguma coisa resta daqueles pombinhos que acreditavam que ficariam juntos para sempre. Ela disse repetidamente que não ia embora por falta de amor, disse a verdade.
Isso é coração.